Terça-feira, 22 de Maio de 2012

quimeras



num espaço inóspito, junto à areia, invento-me
em quimeras de ti e sonho-te junto ao mar de águas calmas
que se agitam, ao sabor da aragem que serpenteia a tarde
e lança esquiços de algas e búzios para a praia.

não há sombras em desalinho, ou frio sequer,
no dia que se acaba, lânguido e cheio de sabores,
na mansidão calma dos olhares meus
na espuma que as ondas osculam a areia ainda quente.

invento-me em ti e, na perturbação da tarde
chegam fragrâncias inconfundíveis de decifrar
 que me abandonam em crescente volúpia.

no voo das gaivotas, invento-me e vou com elas
desprotegida, sem rumo e sem destino,
no desvario de ser apenas e só uma utopia com asas.


© Piedade Araújo Sol 2012-05-22 
fotp  


Terça-feira, 15 de Maio de 2012

O Poema

Para L. M.

O poema pode nascer nos teus olhos, sem que tivesses feito nada por isso.
Um sorriso apenas e o poema salta para o papel, voa e ganha asas pelas planícies de um lugar em silêncio na retina dos teus olhos.
Galga fronteiras como se fosse um cavalo alado, a galopar nas asas secretas da tua imaginação prenhe de acasos.
O poema nasce em ti e nos dedos esquivos, que se tornam dóceis que escrevem palavras que dedilhas como se fossem renda de bilros que um dia viste nas cortinas da casa da tua avó.
Sabes que um dia os lançaras ao fogo e que serão devorados pelas chamas sequiosas, como se fossem elas, abutres em redor de carne putrefacta.
Um dia apenas a memória tecerá em ti memórias (outras) de um poema que ninguém leu e que o fogo devorou.
Um dia que pode ser já hoje!
.

© Piedade Araújo Sol 2012-05-15
Foto : Agniesszka Uziębło

Terça-feira, 8 de Maio de 2012

Sei que és


Sei que és
Tão forte como um touro
E que, nem um tufão
Te fará vergar ou cair
Pois terias um escudo protector
Escondido em ti.

Fico a congeminar se terás sido
Tonificado por algum meteoro
Que num dia sem ninguém se aperceber
Caiu num lugar despovoado
Dalguma praia inacessível.

Ah ser tu, sem mim
Ah a distancia das areias
E a água do oceano
Que se banha sem nós
E nos lava as quimeras
Salgadas e melosas.

Mas a tua áurea
Será a luz que me ilumina
E me dá alento
Para que a minha boca
Saboreio o beijo das
Bocas famintas de alvoradas

E o caos em nós.

© Piedade Araújo Sol 2012-05-08

Terça-feira, 1 de Maio de 2012

No limiar solto das palavras


No limiar solto das palavras, encerro por vezes
o desejo que me cai em cascata pelo
corpo, como labareda a
inflamar a garganta, que se torna seca,
e sem ar.

Na exiguidade concisa de um sonho (rubro e indizível),
em evidentes sinais de ternura
no beijo que as nossas bocas partilham, resisto
como se as nascentes, virgens, conduzissem as
águas apenas – e só – para o mar.

E quando te vejo em cada nuvem, que por vezes
entenebrece o horizonte, e o meu hálito
faz círculos na janela, o ar que ainda respiro
mantém-se encarcerado no silêncio
das manhãs acinzentadas.

Penso que um dia – muito próximo
pego nas minhas palavras e ponho-as a dormir contigo
espalhadas pela cama, como se fossem framboesas maduras
e ainda  virgens…
.

© Piedade Araújo Sol 2012-05-01

Terça-feira, 24 de Abril de 2012

Dança ao Lusco Fusco






o sol está forte
na visão que ofusca o meu olhar
para além do horizonte das ondas dos barcos
um bando de gaivotas intromete-se
num desarranjo hostil
como que picado por algum estranho motivo
e eu estremeço à sombra do rumor das suas asas
de voo imprevisível
só compreendido pelo vento.

reacendo o meu olhar
na chama veloz do crepúsculo
a morrer de ternura na água salgada de sempre
e embalo em mim a perfeição do momento
que se esvai
na tarde
e se escurece em mim sem um lamento.

é tempo de dizer adeus a mais um dia
como se eu fosse mariposa
saio da praia varina a dançar ao lusco-fusco
aclamada pelo ritmo do luar
num bailado de ave graciosa
meneio estonteante de uma bailarina que renasce
descalça e venturosa.
 .
 © Piedade Araújo Sol 2012-04-24
 Foto :LAQ

Terça-feira, 17 de Abril de 2012

Algures entre as palavras




Algures entre as tuas palavras,
Conquistou-me o amor que senti na raiz do teu querer.
Fiquei plena de alvoradas
Na noite em que mergulhei em brumas feitas de luz.
.
Escrevi-te quando o sol – desnecessário - ainda nem tinha nascido,
E debruava margens de rios misteriosos de prazer.
Porque eu brincava com o brilho das estrelas nos meus olhos.

Desejei conceber-te
E as minhas mãos descobriram que o teu corpo podia ser um rio
Que palmilhava abismos e desaguava em mim
Qual foz perdida num mar cheio de sal.
.
E concebi-te mesmo,
Descobri que o sorriso podia ser uníssono e que as pétalas
Podiam estar espalhadas tanto em mim como em nós.
.
Hoje – e sempre - desejo cobrir o teu corpo com beijos de mar
E abraçar o dia antes que escureça.
Quero que o nosso sonho seja um potro a cavalgar montanhas
E se metamorfoseie logo que se dilua em mim.

Autor : © Piedade Araújo Sol 2012-04-17

Terça-feira, 10 de Abril de 2012

Os Afetos



Arrisquei pintar-te
dissolvi aguarelas
endireitei o pincel prenhe de tinta
e apenas a luz das cores
rodopiou nos meus dedos
destrambelhados de enternecimento
e suicidou-se no ar.
.
Os afetos não se podem pintar.

.
© Piedade Araujo Sol 2010-04-10.


Terça-feira, 3 de Abril de 2012

Escrevi madrugadas

Escrevi madrugadas inteiras luzidas de noite
enquanto não tive o sol nos meus dedos.

Brinquei com o brilho das estrelas
e com elas bordei mapas de países ignorados
mas as minhas mãos não sabiam
que escrever é apenas uma ironia.

Muitas vezes, foi sobre as folhas
imaculadas que adormeci libelinha.
Outras vezes sobre gatafunhos
letras minhas
apesar disso inexplicáveis.

.
O tempo passou e hoje
não sonho
nem escrevo
sobre países que ainda não conheço
porque eu queria escrever sobre o meu país
e não consigo, assaltam-me as brumas
da incerteza
do medo
que nunca experimentei nos meus dedos.
E é sob os beijos deste sol
num mar de carícias azuis compassivas
mas às mãos de madrugadas inteiras
cada vez mais luzidas de noite
que me interrogo se serei louca
ao escrever, afinal, que ainda amo este País.
.
© Piedade Araujo Sol 2010-04-03.

Terça-feira, 27 de Março de 2012

Ninguém é capaz



Ninguém é capaz, nem mesmo à lupa,
De te ver como só eu te vejo
Quando sorris e o teu rosto se ilumina
É como se o sol apenas brilhasse para mim

Mesmo quando, raramente,
O teu olhar se cala e parece que nada traduz,
Eu vejo o teu interior claro e comedido
No mais ínfimo dos detalhes

Todos te conhecem mas não sabem
As qualidades que de ti me sulcam
E os defeitos que em mim soçobram

Só eu sei – tu, nem por sombras sonhas -
Da transparência iluminada da tua beleza
Quando, de tão rendida, olho para ti

 .
© Piedade Araújo Sol  2012-03-27
 Foto : shawrus 


Terça-feira, 20 de Março de 2012

Talvez a saudade



Talvez a saudade tenha perpassado por mim
e me tenha cravado as marcas
boleadas de cores sépia no olhar como os contornos da areia
que os meus pés molham ao cair da tarde, onde as gaivotas
por vezes adestram os seus voos
- nem sempre graciosos -
e em que me entrelaço na ténue recordação de um dia já pisado
.
Terás dito
- tal como a sombra -
que a areia não se afundava na água - e eu acreditei
em tudo o que vi e ouvi - julguei que assim seria - um testamento
lavrado e registado em letras que se podiam gravar
nas pedras que flutuariam no mar da nossa redenção
.
E eu
- tão louca -
ainda quis esculpir o teu sorriso em chamas bravas nas pedras
que as águas - do nosso suor salgadas - não poderiam apagar
-
© Piedade  Aráujo Sol 2012-03-20